O desafio da ressocialização de crianças nas escolas públicas de Cabo Frio

CABO FRIO – Após quase dois anos longe das salas de aulas, os estudantes da rede pública da cidade de Cabo Frio já enfrentam um novo desafio de ressocialização, com o retorno das aulas presenciais, realizado em agosto de 2021. Desde então, alunos e professores se deparam com um cenário diferente: cadeiras distanciadas em 1,5 metro umas das outras, uso obrigatório de máscara, novos protocolos de higiene: dificultando a adaptação às novas rotinas e a interação direta entre alunos e professores.

De acordo com a docente Luiza Reis, que leciona na Escola Municipal Robinson Carvalho Azevedo, as crianças conseguiram se adequar ao ambiente escolar, no entanto, o local não é mais o mesmo. 

Se adaptaram ao contato com outro, mas não tem um ambiente harmonioso, pois quase não tem nada para fazer, que não seja ficar em sala, ir ao refeitório por 10 minutos e ir embora. O ambiente encontra-se triste”, diz a professora Luiza.

Luiza explica que a pandemia poderá prejudicar o ensino público, uma vez que muitos alunos não conseguem acompanhar as matérias. (Reprodução: Arquivo Pessoal).

Em acordo com o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a Prefeitura de Cabo Frio se comprometeu em retornar às aulas presenciais em 50% das escolas até o dia 15 de agosto e em 100% até o dia 18 de outubro. Como é o caso da aluna do 8ª ano do Ensino Fundamental, Rebeca Gomes, 13 anos, que voltará para a sala de aula na segunda-feira (18).

Segundo Elizabeth Gomes, mãe da menina, a vontade e o empenho da jovem pelos estudos mudaram completamente, ela ainda enfatiza que foram dois anos perdidos e  acrescenta que tem visto outros adolescentes desistirem. 

Minha filha mudou e tem pouquíssimo interesse pelo estudo. Praticamente 3 anos sem conteúdo, com certeza perdeu um tempo precioso, não só ela, como tenho visto outros”, conta Elizabeth.

Elizabeth explica que a maior preocupação neste momento não é a Covid-19, por entender que é necessário que a vida volte ao  normal, mas como as escolas estarão desenvolvendo o conteúdo que será aplicado aos alunos e não somente cumprir a carga horária perdida.

Maria Moreira, mãe do aluno Caio Moreira, de 21 anos e integrante do 1º ano no Ensino Médio, compartilha do mesmo sentimento. Ela ainda explica que o filho apresenta dificuldades para aprender e não participou de nenhuma aula virtual, pois as presenciais são melhores para o desenvolvimento mental dele. Sua maior aflição é como ele irá reagir ao retornar ao ambiente escolar e o contato com outros alunos. 

Ele tem dificuldade na coordenação, na fala e é muito tímido, até consegue  fazer amizade com pessoas mais velhas, como os professores, mas com os colegas de turma é  sempre muito difícil. Vai ser uma adaptação complicada”,  aponta Maria.

Catharina Silva, de 10 anos, aluna do 4º ano da rede pública,  já retornou ao ambiente presencial. Patrícia Barbosa, sua mãe, conta que no início existiram muitas dificuldades em manter o aprendizado on-line. No entanto, mesmo com a preocupação com a Covid-19, a mãe da aluna autorizou o retorno ao presencial com receio de a menina não conseguir acompanhar o conteúdo.

A maior preocupação é, com certeza, as questões de higiene. Por mim ela não voltava a estudar, pelo menos não esse ano, mas não sei até quando vou ter condições de pagar uma professora particular para tentar adiantar ao máximo para que ela não se prejudique”, justifica Patrícia. 

De acordo com a mãe, Catharina voltou à sala de aula um pouco mais tímida do que o normal e está achando tudo muito estranho, mas acredita que com o tempo a garota conseguirá se adaptar ao ambiente novamente.

A minha filha, em especial, ainda está achando tudo muito esquisito por conta do número de pessoas na escola. Aos poucos acredito que ela vai se soltar, até porque voltei ela para o reforço particular”, esclarece Patrícia. 

A psicóloga especialista em Terapia Integrativa, Cátia Renata Coutinho, conta que a volta ao presencial contribuirá para o resgate da interação, estímulo indispensável para o aprendizado. Ela também argumenta que o retorno precisa ser feito com calma. “O tempo e o acompanhamento são importantes para que os alunos se sintam seguros e encarem os novos desafios”, pondera a especialista.

A psicóloga conta que os profissionais da escola e equipes de saúde devem trabalhar juntos para acompanhar os alunos no retorno. Reprodução: Arquivo Pessoal.

A orientadora educacional Simone Noêmia da Silva, do Colégio Elza Maria Santa Rosa Bernardo, do bairro Jardim Esperança, no município de Cabo Frio, informa que a escola está fazendo o possível para conseguir inserir esses alunos que não participaram das aulas durante o período virtualizado.

O retorno presencial depende mais dos protocolos e dos pais autorizarem, pois a escola já está adequada a receber todos os alunos. Os pais precisam estar seguros de que os filhos estão em condições de voltar normalmente”, explica Noêmia. 

Mesmo com o espaço completamente reconfigurado, as escolas desenvolveram propostas e projetos de ressocialização para que os estudantes e seus familiares sintam-se confortáveis com o novo formato.

O planejamento é que esses alunos possam recuperar o conhecimento e a criatividade que foram restritos durante a pandemia, para que a educação pública consiga seguir em frente e vencer os desafios enfrentados durante os dois anos longe das salas de aula.

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Por Ana Beatriz Rangel (editor), Virgínia Carvalho (repórter), Ariane Viana (produtor) e Radija Nathalia (social media) (Jornal on-line) 


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