SEPETIBA – Transformar o panorama local de uma região, cidade, bairro ou comunidade nunca foi uma tarefa fácil. Entretanto, apesar das adversidades enfrentadas, ainda existem diversas pessoas e grupos que vislumbram no ato de ajudar ao próximo um de seus objetivos de vida. Um bom exemplo disso é o da ONG Abrace Sepetiba, uma organização não-governamental situada no bairro de Sepetiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro, que desenvolve projetos sociais com o intuito de assistir à população local.
A ONG nasceu como um projeto social, cujo foco era prestar assistência às pessoas em situação de rua nos bairros adjacentes à Sepetiba. Com o passar do tempo, notou-se a importância de abraçar outras carências, visando combater a raiz do problema e não somente a consequência.
Nossa intenção é trabalhar na causa do problema e não só no efeito, na ponta… Que já é a rua, a criminalidade”, explica a vice-presidente da ONG Abrace, Patrícia Tavares.

(Foto: Abrace Sepetiba/Instagram)
Quanto às atividades realizadas pela organização, carinhosamente chamada de Abrace, estas abrangem diversas áreas de atuação, tais como educação, formação profissional, assistência social, entre outras. O objetivo é proporcionar mais oportunidades àqueles que necessitam, sobretudo por intermédio de cursos preparatórios e profissionalizantes.
Percebemos que os moradores sofrem muito pela falta de oportunidades. Sendo assim, decidimos oferecer alguns cursos preparatórios e de capacitação para ajudá-los em sua autonomia. Além disso, o Abrace também tem um projeto infantil que visa auxiliar nas dificuldades de aprendizado das crianças”, relata a vice-presidente da ONG.
Dentre os cursos oferecidos, aquele que obteve maior notoriedade foi o do preparatório para admissão na Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), ministrado no começo de 2021. O curso contou com três professores voluntários, sendo um para português e dois para matemática, tópico no qual os alunos apresentaram maior grau de dificuldade. As aulas aconteciam no decorrer da semana e duravam aproximadamente duas horas.
De acordo com a professora de português, Giulia Moraes, de 20 anos, inicialmente os alunos aparentavam uma certa timidez, que logo foi sendo deixada de lado, resultando numa maior interatividade nas aulas. Para ela, colaborar com o projeto foi gratificante, ainda que desafiador.
Quando soube que os alunos seriam de 9° ano fiquei preocupada, pois achei que não daria conta, visto que até aquele momento só havia trabalhado com crianças e não adolescentes. Porém, eles foram incríveis, extremamente esforçados em busca daquele objetivo, e eu pude passar a eles um pouco de conhecimento”, comenta a professora.

Abrace tem sua rotina alterada durante a pandemia
Vale ressaltar que a pandemia de Covid-19 influenciou diretamente nas atividades da ONG, sendo necessário que alguns projetos fossem temporariamente suspensos. Diante disso, a organização voltou suas atenções às atividades que podiam ser realizadas com o menor risco de contaminação possível, dentre elas as relacionadas às questões alimentares e de higiene básica.
Infelizmente, todas as atividades tiveram que ser suspensas e focamos em sanar as maiores necessidades do momento, a alimentação e os cuidados básicos. Passamos todo o ano de 2020 focados na arrecadação e distribuição de alimentos e roupas. Somente em setembro, conseguimos voltar com as turmas dos cursos de maquiagem e trança”, conta a presidente do Abrace Sepetiba, Elizabeth Meirelles.
A ONG conseguiu retornar presencialmente apenas no final de 2020, momento em que anunciou a formação de turmas para dois cursos profissionalizantes, um de maquiagem e outro de trancista. Segundo Patrícia, os cursos ajudaram várias mulheres desempregadas a obter algum meio de sustento e colaboraram para que algumas delas pudessem sair dos relacionamentos abusivos nos quais viviam devido a dependência financeira.
No curso de trancista tivemos mulheres que estavam passando por problemas graves de desemprego e relacionamento abusivo. Hoje em dia, elas conseguem sustentar suas famílias com o trabalho de trancista e saíram de seus relacionamentos abusivos. Algumas delas serão as professoras das próximas turmas do curso”, revela a vice-presidente.
É notório que os impactos causados por projetos sociais vão além daqueles a curto prazo. Dentro de uma comunidade, seja esta qual for, as ações de uma ONG refletem nas diferentes classes sociais, influenciando não só o presente, mas também o futuro das pessoas alcançadas por ela.
As ONGs e projetos sociais, por vezes, chegam aonde o estado, por falta de vontade política, capacidade ou interesse, não consegue chegar. A depender da reflexão gerada a partir desse espaço coletivo, as comunidades atendidas por essas entidades podem ter acesso a um conhecimento sobre si que em nenhum outro lugar conseguiriam alcançar. Reconhecer de onde se vem é o primeiro passo para saber aonde chegar”, esclarece o licenciado e mestrando em Ciências Sociais, Leonardo Cruz.
Portanto, percebe-se que as mazelas sociais, muitas vezes alimentadas pelo descaso governamental, ainda não possuem seus dias contados na sociedade. Em contrapartida, isso não significa que as pessoas deixaram de buscar por uma realidade mais equitativa para todos. Dentro desse contexto, as ONGs carregam as bandeiras daqueles que sozinhos não conseguem ser ouvidos por seus governantes, reforçando, a cada ação social, a sua relevância na luta pela liberdade e cidadania.
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Por Mayani Caldas (editora), Anne Rocha (repórter), Isabella Caneschi (produtora) e Gabriela Machado (social media) (Jornal Online)
