Coronavírus: desafios da migração das aulas presenciais para o ambiente virtual

Em meio ao isolamento social devido ao coronavírus, algumas escolas e universidades decidiram se reinventar: as salas de aula passaram para o ambiente virtual. Os desafios de manter os alunos, ainda mais na infância e adolescência, concentrados nas aulas em meio ao mundo online são muitos. Agora, imagina conseguir isso em um momento em que os alunos não saem de casa. A disciplina de horário e presença precisa ser mantida, assim como o comprometimento e a atenção ao professor. Acesse o decreto do MEC que autoriza a migração das aulas presenciais para o ambiente virtual: http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-544-de-16-de-junho-de-2020-261924872

A estudante de medicina Luísa Calazans, de 22 anos, está insatisfeita com o fato das aulas presenciais terem migrado para o ambiente online. “Muitos alunos não têm acesso à internet e aos meios necessários para estudar em casa”. Ela conta que a internet de sua casa não está funcionando bem, o que dificulta a sua presença e o seu rendimento durante este período. “Eu não consigo carregar as minhas aulas no computador, então assisto depois do horário previsto para elas acontecerem. Por isso, não consigo tirar as minhas dúvidas com os professores. Isso me incomoda profundamente”.

Luísa confessa que sente falta dos quadros brancos das aulas presenciais. “Como eu estudo anatomia e bioquímica na faculdade de medicina, sinto muita falta das ilustrações feitas pelo professor, pois ajudam no aprendizado”. Outra coisa que não agrada Luísa é o fato de não ter acesso aos laboratórios, os quais são essências para o seu aprendizado. O problema que Luísa enfrenta com a internet para poder assistir às aulas da sua faculdade é uma das dificuldades apontadas pela pedagoga Rachel Gonçalez no que diz respeito à migração das aulas presenciais para o ambiente virtual. “Nem todos conseguem ter acesso. Além disso, a realização de atividades à distância requer uma disciplina que a maioria dos estudantes não possui”.

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Rachel explica que, pelo fato da educação básica abranger alunos de diferentes faixas etárias, o aprendizado de cada um se dá de formas diferentes. “Crianças de educação infantil, em função da idade, não podem ter aulas no ambiente virtual. Os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental já conseguem realizar algumas atividades, e os que já estão nos anos finais do Ensino Fundamental e Médio possuem maior capacidade de concentração, autonomia e disciplina”.  A pedagoga acredita que a rotina dos alunos foi comprometida devido a esta migração para o ambiente online. “Isso certamente tem reflexo em seu desempenho e capacidade de concentração, uma vez que o isolamento social pode afetar o lado emocional e motivacional dos alunos”.

Assim como Rachel, a professora e pedagoga Renata Assunção também acredita que o desempenho dos estudantes ficou comprometido neste período. “Aquele aluno, que antes se atentava a uma aula de 50 minutos, em um ambiente favorável para isso, onde havia interação social, hoje se vê diante de um aparato tecnológico, tendo que ser o único responsável pelo seu aprendizado”. Segundo Renata, se o aluno não tiver comprometimento e uma rotina de estudos, ele não atinge os objetivos propostos.

Renata explica que os desafios desta nova realidade não foram somente para os alunos. Para ela, os professores não foram preparados para este tipo de situação. “Na escola particular em que trabalho, eu gravo vídeo-aulas dos componentes curriculares. Virei atriz, editora, cinegrafista, tudo no mesmo pacote. Junto a isso tenho afazeres de casa, filho e a ansiedade que o momento atual nos traz”. Ela defende que as instituições de ensino devem ter responsabilidade em suas ações. “Fazer essa migração para as plataformas virtuais de qualquer forma, sem se preocupar com o aluno e com o professor, é fácil. Mas fazer algo de qualidade, com consciência de que não tem 100% de alunos com o uso da tecnologia, com aulas bem elaboradas, planejadas e que sustentem os conteúdos é extremamente difícil”.

 


Letícia Montilla – Oficina Multimídia de Jornalismo 

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