Após aumento da carne, mercado de ossos cresce em Engenho da Rainha 

RIO DE JANEIRO – Arroz, feijão, salada, farofa e carne. Esta pode ser uma das composições do prato feito, o famoso “PF”. O prato que junta uma proteína (carne), legumes e cereais é quase um marco cultural nacional, sendo responsável pela alimentação de milhares de cariocas. Entretanto, uma das estrelas principais do prato, a carne, vêm se tornando um artigo de luxo entre muitas famílias, que trocaram a proteína pelo osso. A alternativa traz uma ferida: a dignidade de uma população que vê a alimentação se tornando escassa e difícil. 

De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço da carne bovina teve um aumento de cerca de 30% nos últimos 12 meses no Rio de Janeiro. Estes números transforaram a carne na proteína mais cara no Brasil, e vêm tornando o produto extremamente raro na mesa de brasileiros e também na de cariocas.  

O osso se tornou produto de rotina nos açougues em 2021. (Foto: Reprodução Twitter)

O doutor em Ciências Econômicas e Coordenador do curso de Economia da Universidade Veiga de Almeida (UVA) Otto Gerstenberger, cita os motivos que geraram o aumento no preço da carne.

A subida do dólar, os estímulos emergenciais à base da pirâmide durante a pandemia e a falta insumos foram os principais fatores que contribuíram para o aumento do preço dos produtos, inclusive da carne”, explica ele. 

A previsão para os próximos anos é de incerteza, como cita o economista. “A economia nacional têm recuperado, em 2021, a queda do Produto Interno Bruto (PIB) registrada durante o ano de 2020. Entretanto, a imprevisibilidade do ano eleitoral deve conter o crescimento nacional de 2022”. A incerteza econômica fez com que um novo produto entrasse em cena na alimentação: os ossos. 

Mercado dos ossos: o que era lixo se tornou produto

Um item que antes era tratado como resto, e até mesmo lixo, vem ganhando lugar na mesa de moradores de Engenho da Rainha, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Foi o aconteceu com a atendente de telemarketing Carla*, 37 anos, que passou a usar o osso da carne na rotina diária.

Tivemos que nos virar com o que estava ao nosso alcance, então o osso se tornou a opção, junto com ovos”, diz ela. 

Carla relata ainda os problemas da nova dieta. “Para gente foi bem difícil abrir mão de certos alimentos. É uma adaptação bem complicada, mas a gente espera que melhore em breve”, explica a atendente.

A rotina da trabalhadora é a mesma de muitos outros, conforme relata Lara Lima Bezerra, estudante de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e integrante do “Geo Sem Fome“, grupo voluntário que, dentre outras propostas, leva comida a quem mais precisa.  

A estudante relata que muitos dos que recebem doações buscam o osso para raspagem e “pelanca”, o que antes era visto como lixo.

O pessoal compra a pelanca para usar muito no feijão, para dar um gosto. Eles decoram até mesmo o dia em que o pessoal vende ou joga fora”, diz. 

Lara conta ainda que, após o fim do auxilio emergencial, a fila de pessoas em busca de doações aumentou bastante e vêm sendo difícil alimentar todos por meio do “Geo Sem Fome”. 

A demanda pelos ossos fez surgir um novo mercado no Rio de Janeiro. A comercialização do resto das carnes varia entre R$ 2,00 a R$ 5,00 por bandeja, dependendo do lugar. Nos bairros de Inhaúma e Engenho da Rainha ossos são vendidos em feiras e mercados, seja de grande ou pequeno porte. Um dos estabelecimentos que comercializa os ossos é o Mercado do Silvio, localizado na rua Mario Ferreira, 333, no Engenho da Rainha. No mercadinho, cada pedaço de osso é vendido a R$ 2,00.  

O açougue do Mercado do Silvio se tornou ponto de venda de osso. (Foto: Marcella Nascimento) 

O gerente do estabelecimento, Sergio Silva, no entanto, conta que o processo da venda tem outra destinação.

“A gente sempre vendeu o osso, mesmo antes da pandemia, principalmente para cachorro, mas no geral a adesão é muito baixa”, diz. O funcionário do mercado conta ainda que nem todo osso é vendido: “aqueles que não servem a gente joga fora”. 

Entretanto, de acordo com fontes da reportagem, os ossos eram descartados e doados antes da pandemia, e passaram a ser vendidos como uma alternativa ao preço da carne.

Na data da reportagem, nossa equipe foi ao local em busca de uma bandeja, porém a procura foi em vão, uma vez que o produto já tinha acabado, o que demonstra a grande demanda.  

Um consumidor do mercado, que preferiu não se identificar, conta sua própria experiência.

“Isso (ossos) não tinha aqui não. De um ano pra cá que eles passaram a colocar. Eu mesmo já tive que comprar, por falta de dinheiro e necessidade”. O cliente relata ainda o sentimento que passou no momento da compra: “é de doer o coração, a gente chegou num ponto de comer a mesma coisa que dá para animal”, conta. 

O perigo do uso do osso na alimentação

O uso do osso pode levar a prejuízos no âmbito da saúde, conforme relata Rayssa de Araujo Cavalcanti, formada em nutrição pelo Centro Universitário IBMR e pós-graduanda em nutrição clínica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com a nutricionista, as propriedades estruturais do osso são insuficientes para uma alimentação balanceada. “A sopa feita com o osso produz apenas um tipo de proteína (colágeno), mas precisa ser fervida durante horas para fazer efeito”. A profissional alerta que o osso não pode ser alternativa.

Apenas usar o osso pode causar carência dos demais tipos de proteínas, então é preciso uma alimentação balanceada. Consumir apenas o caldo com osso, ao longo prazo, pode causar carência de macro e de micronutrientes”, diz a nutricionista. 

A salsicha foi a alternativa encontrada pelo grupo Geo Sem fome de incluir uma proteína na produção das quentinhas. (Foto: Lara Lima Bezerra) 

A profissional da saúde cita ainda as alternativas recomendadas: “a melhor opção para substituir a carne vermelha é o frango e o ovo, associados com cereais e leguminosas, como arroz, feijão e cereais. O consumo de proteína a base de soja também é válido e vem crescendo no país”.  

o Governo Federal possui uma cartilha de guia alimentar, que traz dados desde a escolha do alimento certo à superação de obstáculos alimentares, além de dez passos para uma alimentação adequada e saudável.

A voluntária Lara Lima Bezerra conta que o aumento do preço dos insumos modificou a quentinha doada pelo Geo Sem Fome, e obrigou o grupo a trazer novas opções para alimentar quem mais precisa. “A gente não consegue colocar carne nas marmitas, até mesmo o ovo aumentou e ficou inviável. No momento, a composição do prato é de arroz, feijão, macarrão, salada e a salsicha, que é alternativa que encontramos pra proteína”.  

A nutricionista Rayssa Cavalcanti ressalta a importância de uma alimentação balanceada, principalmente durante a pandemia, com o uso de proteínas necessárias

“É um macronutriente essencial à vida. Ela é responsável pela construção de todos os nossos tecidos corporais, formação de enzimas, hormônios e anticorpos, transportam oxigênio, nutrientes e até medicamentos pelo corpo humano”. Rayssa realça ainda a ingestão adequada de proteínas. ”É imprescindível para que possamos crescer de maneira adequada e mantermos uma boa saúde”. 

* A entrevistada preferiu não se identificar, então, seu nome foi alterado.

LEIA TAMBÉM: Alimentação em tempos de pandemia
LEIA TAMBÉM: Alimentação sem carne é tendência entre cariocas

Por Larissa Teixeira (editor), Leonardo Minardi (redator), Marcella Nascimento (repórter) (Jornal On line)


Um comentário sobre “Após aumento da carne, mercado de ossos cresce em Engenho da Rainha 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s